Segurança Jurídica no Plantão: Cuidados Que Começam Antes de Qualquer Processo

Leandro Pereira de Lima Morais

9/28/20262 min read

Imagine a seguinte situação: ao final de um plantão movimentado, um médico libera um paciente após avaliação e melhora dos sintomas. Explica quando ele deve retornar, comenta os sinais de alerta e orienta o acompanhamento. No prontuário, porém, registra apenas: “Paciente melhorado. Alta com orientações”.

Dias depois, diante de uma evolução desfavorável, surge uma pergunta: quais orientações foram dadas?

O exemplo é fictício, mas apresenta uma dificuldade concreta: reconstruir um atendimento quando parte do que aconteceu ficou apenas na memória de quem participou.

É nesse cotidiano que o Direito Médico pode ser útil. A segurança jurídica começa nas decisões tomadas durante a assistência, na maneira de conversar e na possibilidade de compreender, depois, o que foi feito e por quê.

O prontuário precisa contar a história do atendimento. O artigo 87 do Código de Ética Médica exige registros legíveis, com os dados clínicos necessários à condução do caso, em ordem cronológica, com data, hora, assinatura e número do CRM. Na prática, registre os achados relevantes, as hipóteses consideradas, as condutas e as orientações efetivamente fornecidas. Expressões genéricas podem deixar dúvidas sobre o atendimento.

Uma pergunta ajuda a avaliar a clareza do registro: se outro profissional lesse esse prontuário amanhã, conseguiria entender o caminho percorrido até aquela decisão?

A conversa também faz parte da segurança. Na obtenção do consentimento, a Recomendação CFM nº 1/2016 valoriza o esclarecimento e a compreensão do paciente. A assinatura de um formulário deve acompanhar um processo de informação e decisão. Explique a proposta de cuidado, os riscos relevantes, os benefícios e as alternativas, em linguagem acessível, permitindo perguntas.

Uma forma de perceber dúvidas é pedir que o paciente explique, com suas próprias palavras, o que entendeu. “Ficou alguma dúvida?” pode abrir uma conversa; “Como você vai seguir essas orientações em casa?” pode revelar dificuldades que ainda não apareceram.

A passagem de plantão merece a mesma atenção. O artigo 9º do Código de Ética Médica veda abandonar o plantão sem substituto, salvo justo impedimento, e atribui à direção técnica a providência da substituição quando ele faltar. Além da presença de quem assume, transmita os casos relevantes, as pendências e os pontos que exigem reavaliação.

Pense em um exame solicitado perto do encerramento do turno: quem acompanhará o resultado? Essa definição precisa estar clara para a equipe.

As condições de trabalho também entram nessa discussão. O Código reconhece o direito a condições dignas e prevê a comunicação de falhas institucionais às instâncias competentes. Diante de uma limitação que comprometa a assistência, descreva objetivamente o problema e acione os responsáveis, preservando a continuidade dos cuidados.

Para começar, escolha um ponto da sua rotina que merece atenção: a evolução excessivamente abreviada, a orientação de alta pouco clara ou a passagem de casos feita às pressas. Observe como ele funciona e o que pode melhorar já no próximo plantão.

Este blog nasce para aproximar o Direito dessas situações. Vamos discutir prontuários, consentimento, contratos, processos éticos e outros temas que atravessam a carreira médica, com espaço para as dificuldades reais de quem atende.

Referências: Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018 e alterações); Recomendação CFM nº 1/2016.

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